quarta-feira, 5 de maio de 2010

Velharia

 

Não é segredo pra ninguém que eu gosto de escrever. Volta e meia, vasculhando meus arquivos, me deparo com algum texto antigo. Acho legal essas coisas, ler algo que escrevemos há muito tempo e perceber que pensávamos de um jeito diferente. Ou não, perceber que quase nada mudou. O texto abaixo foi escrito em dois mil e cinco, nem lembrava mais de sua existência. Provavelmente se perderia para sempre, então resolvi publicá-lo aqui. Não mudei absolutamente nada, não revisei nem corrigi uma vírgula sequer, o texto está exatamente como foi escrito.

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Sobre o tempo

Nos últimos tempos, muito se tem falado sobre nostalgia, infância nos anos 80, sobre os bons e velhos tempos. Tudo isso sempre me pareceu muito recente até este fim de semana. Com tantas referências espalhadas pelas mais diversas mídias, foi uma simples frase dita por um colunista de um jornal (Moacyr Scliar, na Zero Hora do dia sete de agosto de 2005) que me fez ter a real noção da passagem do tempo. “... Imagem não é nada, dizia uma antiga propaganda...”, esta era a frase. Uma antiga propaganda. Antiga. Eu lembro perfeitamente dessa frase que esteve presente em boa parte da minha infância e adolescência. E agora essa mesma frase que me pareceu ter sido dita ontem em diversas versões da tal propaganda, foi classificada como antiga. Finalmente eu percebo: o tempo passa. E passa em uma velocidade vertiginosa, tanto que nem nos damos conta! O que ontem nos era familiar, hoje descobrimos que aconteceu anos atrás.

Para quem me ouve falando assim pode até parecer que sou um velho rabugento ou mais um neurótico pregador das glórias do passado. Nada mais longe da verdade, o passado deve permanecer nas lembranças e eu não sou velho (ainda). Rabugento até pode ser, mas apenas em raros momentos de estresse represado. Mas o que eu sou ou deixo de ser não muda esse fato: o tempo passa. E o que fazemos do nosso tempo? Como passamos esse tempo que passa? Perguntas simples, respostas nem tanto. Cada um passa seu tempo como melhor lhe parecer e não sou eu que vou julgar o que poderia ser certo ou errado. Uns passam afundados, seja no trabalho, seja nos estudos, seja com amigos ou sozinho. Talvez afundados em festas ou mesmo na vida. Outros passam fugindo. Fugindo da realidade, fugindo das responsabilidades. Uns até fugindo da felicidade, por mais estranho que possa parecer. Tem ainda aqueles que passam o tempo todo em cima do muro, olhando a paisagem, mas sem coragem de fazer parte dela. Claro que estes três exemplos não esgotam todas as possibilidades, sem falar nas possíveis combinações. E quem está certo? Todo mundo e ninguém, como eu já disse, não sou eu quem vai julgar. Você vai. Cada um de nós vai julgar sua própria maneira de passar o tempo. Analise e julgue. Está satisfeito com o modo como tem agido? Perfeito. Não está? Então considere a possibilidade de mudar, antes que o tempo passe todo.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

[Jouleon] Volta ao Lar

Clérigos. Homens e mulheres que devotaram suas vidas a cultuar os deuses. Uma vida de dedicação e privações. Em troca, ajuda divina. Poder. Pequenos ou grandes milagres concedidos pela sua divindade. Talvez seja assim em algum outro mundo. Não em Jouleon. Não mais.
***
- Sabe, Lemur, eu realmente não entendo porque você reza todos os dias. Digo, os deuses nos abandonaram faz mais de mil anos!

O homem vestido com as túnicas marrons que identificam os membros da Ordem abriu os olhos e levantou da posição submissa em que se encontrava. Havia acabado suas orações matinais e recolhia os materiais sagrados. Um pequeno tapete, um galho de oliveira já seco e seu cantil, agora repleto de água abençoada. Ou assim dizia o próprio Lemur. Virou-se para o elfo e respondeu.

- Os deuses não nos abandonaram, Leonard. Nós os abandonamos. Nós despertamos forças que nunca deveriam ser perturbadas. Os deuses se sacrificaram por nós.

- Balela. Vocês, humanos, podem ter abandonado. Os elfos foram abandonados, assim como cada ser vivo de Jouleon. Até os anões foram deixados pelo seu deus, e eles nem estavam lá quando tudo aconteceu!

Enquanto falava, o elfo cuidava de enterrar as últimas brasas da fogueira que os manteve aquecidos durante a noite. Não estavam sendo seguidos, nem mesmo se preocupavam com isso. Mas Jouleon já tem um deserto gigantesco cobrindo todo leste do continente. Não precisa de um incêndio causado pela negligência de dois viajantes.

Já estavam próximos a Nova Artia. Um dia de caminhada, se tanto. A cidade crescia quase no centro da floresta. Seus habitantes gostavam de falar que, na verdade, a floresta é que crescia ao redor da cidade. O que talvez fosse verdade. Quando os elfos chegaram ao local, logo após o êxodo, a grande Floresta das Estações era pouco mais que um bosque. Algumas das primeiras árvores ainda estavam lá, gigantes transformadas por magia e servindo de lar para família real.

- Será que vão me receber bem dessa vez?
- Ah! Não me diga que ainda está magoado! – disse o elfo abrindo os braços, impaciente. – Foram apenas alguns dias de... vigilância, Lemur.
- Vigilância? Eu fiquei um mês trancado em uma gaiola! Pendurado em uma das árvores mais altas! Você tem idéia de quantas vezes seguidas alguém pode desmaiar, acordar e desmaiar de novo?
- Ora, você gosta tanto dos deuses. Isso te deixou mais próximo de Jaevart...
- Muito engraçado...

A trilha seguida pelos dois amigos não era muito clara. Se em alguns pontos ela era quase uma clareira, em outros a vegetação se fechava como se temesse ser invadida pelos demônios das lendas. Por vezes grandes voltas eram necessárias para avançar alguns poucos metros, e nem sempre era uma tarefa fácil retornar a trilha. Obviamente essa dificuldade toda fazia parte da proteção da cidade élfica, apenas quem soubesse o caminho poderia chegar a Nova Artia sem grandes dificuldades. Lemur havia aprendido o caminho. Leonard o conhecia desde muito jovem. O problema era que algo havia mudado. Dois anos depois de trilharem juntos o caminho pela última vez, parecia que a trilha se fechava sem ter um viajante por séculos. Magia, sem dúvida. Nada que os próprios elfos não pudessem fazer, a pergunta era: porquê?

O rosto de Leonard ficava mais sombrio conforme avançavam. Seu humor, sempre pronto para alguma piada, já parecia estar desistindo de se mostrar. Lemur o conhecia bem o suficiente para ter percebido as mudanças sutis quando começaram. Mas agora, tão perto de seu povo, eram claras o bastante para que qualquer estranho as notasse.

- Fique calmo, Leonard. Nós vamos descobrir o que está acontecendo. Você vai ver que, quando encontrarmos a sua família, vamos descobrir que os elfos cansaram dos humanos e resolveram fechar a porta, só isso. – Lemur pousou a mão no ombro do amigo, consolando sem muita convicção em suas palavras.

Estavam em um trecho relativamente fácil, apenas alguns arbustos no caminho. Talvez tenha sido a distração causada pela preocupação, talvez a armadilha estivesse camuflada por magia. Uma rede escondida no chão, fina, mas muito resistente. Envolveu os dois andarilhos e subiu vertiginosamente até parar muitos metros acima. Leonard tentou reagir e sacar sua faca, mas o espaço era apertado demais. O elfo ainda pode ver alguém no solo se aproximando do lugar onde a armadilha tinha sido montada, mas era difícil enxergar.
- Lemur! Tira essa bota fedorenta da minha cara!
Mas o rapaz não respondeu. Havia desmaiado.