Era uma vez, há muito tempo...
E foi em setembro (num domingo!) de 2009 que eu retomei esse blog, depois de dois anos... Naquela época eu tinha dúvidas se valeria à pena, mas com o tempo acabou se mostrando divertido pra mim. Então hoje nem vou questionar. Novamente passaram dois anos e uns quebrados desde a última postagem, que já não era a única, e novamente venho retomar as atualizações. E, como sempre, sem ter a mínima idéia sobre o que vou escrever.
Mas assim como na última vez que escrevi por aqui, volto a resgatar um texto antigo, que eu já julgava perdido. Ele foi escrito como um scrap para um amigo no Orkut (eu sei que vocês lembram, nem venham fazer essa “face”), lá por 2009. Na época eu achei genial, e mesmo hoje me dou ao luxo de achá-lo muito bom. Segue, erros inclusos como na época (mas os destaques são novos).
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Cara, você realmente é uma pessoa de sorte. Saiba valorizar essa pessoa que tem.
Ler nas entrelinhas é realmente complicado, porque uma parcela ainda
menor de pessoas sabe escrever nas entrelinhas...
Muitas vezes o cara quer dizer uma coisa e, por não saber como falar,
acaba dando a entender algo completamente diferente. Buuum!! Pronto,
ta feita à merda. Leva-se anos para construir o arranha-céu da sua
vida, onde cada pessoa tem o seu lugar e o espaço é bastante para
todos, com área livre ainda para novos inquilinos e basta um
terrorista com um avião para destruí-lo em uma manhã...
Aí você passa a viver em um barraco improvisado, onde a comida e a
água são escassas, as pessoas começam a se irritar por ter de viver
espremidas e começam a debandar. Logo você está sozinho. Talvez teu
cachorro fique. O gato fica, mas só porque as ruínas do edifício são
um excelente lugar para explorar.
Você olha para essas ruínas, lembra do tempo que levou pra construir e
desanima. Você já não tem a mesma disposição que tinha antigamente.
"Vai ser impossível reconstruir", você pensa. Mas morar naquele
barraco improvisado não dá, né? Então você constrói uma casinha com
sala, cozinha, banheiro e dois quartos (sem nem ter idéia do que fazer
com mais um quarto, o cachorro fica na casinha lá fora). Nem pintar a
casa você pinta, já não vale a pena. Móveis? Pfff, uma cadeira, um
colchão no chão e uma geladeira. Nem fogão, afinal você não sabe
cozinhar.
E acaba se acostumando com essa vida, se acomodando e aceitando que
esses são os fatos da vida.
Talvez o seu mundo acabe por aí. Mas se você não se isolar totalmente
do mundo, talvez um dia venha uma pessoinha bater a sua porta, talvez
seja bonita, talvez não. Talvez esteja vendendo Avon ou um carnê do
baú. Ou quem sabe é uma enfermeira do programa de saúde do bairro.
Não importa.
O que importa é que talvez seja só mais uma pessoa, mas talvez não.
Talvez seja a pessoa que você vai abrir a porta e dizer "pois não?" e
ela vai responder:
- Bom dia, o senhor teria alguns minutinhos?"
- Desculpe, mas estou ocupado agora...
- Ah, mas vai ser rápido, meu nome é ________ e estou aqui para
mostrar o mais novo lançamento da Avon, o perfume masculino Taqueospa!
Sinta esse cheirinho maravilhoso...
E com essa frase ela lhe coloca no nariz um frasquinho aberto com
cheiro de gambá morto há uns cinco dias dentro de uma fábrica de
enxofre.
- TAQUEOSPARIU!
- Não, o nome é Taqueospa, só. Viu como é bom? Não gostou? Eu tenho outros.
Ela vai entrando em sua casa, você ainda tonto com o "perfume" vai seguindo ela.
- Nossa, essa casa é bem vazia, né? Podia pelo menos ter pintado a parede...
- Moça, eu realmente não quero perfumes.
- Temos loção pós-barba também. Quer ver? Não tem sofá aqui não?
- Err, eu não costumo receber visitas...
- Não? Ah, mas isso não é legal. Bom mesmo é ter milhares de amigos.
Um dia vou construir um arranha-céu pra pôr todos meus amigos!
É nessa hora que você fica em silêncio e sente aquela pontada no peito
que já tinha esquecido como era. A dor é suportável e você a recebe
quase como uma amiga.
- Bem, eu não tenho sofá, mas espera um pouco que eu trago o colchão
pra sala e a gente senta nele.
-Tá. ^^ - (sim, você enxerga um emoticon no sorriso dela)
No quarto você começa a pensar em porque você está fazendo isso. Nem
conhece essa pessoa, é uma vendedora, você não a convidou para entrar
e agora esta aqui, desarrumando a casa para agradá-la. É melhor
mandá-la embora. Sim, é isso que você vai fazer, está decidido, vai
entrar na sala e pedir que se retire. Você ruma para a sala com essa
intenção clara em sua mente. Mas leva o colchão junto...
- Olha, moça, eu... O que você ta fazendo?
- Hihi, olha essa lagartixa, ta paradinha...
- ... tentando caçar a mosca, é eu sei. Tem várias aqui.
- Que legal! Lá em casa não tem. A mãe não gosta.
- Isso é porque as lagartixas são...
- ... Incompreendidas. Elas não fazem mal, não tem veneno nem força
pra machucar numa mordida. Tudo que elas fazem é...
- ... comer as moscas. São boas pra manter a casa livre delas.
Então você arruma o colchão no chão e se senta com essa pessoa.
Conversam a manhã toda, descobrem coisas em comum e várias vezes
completam a frase do outro. Perto do meio-dia ela levanta.
-Nossa, tenho que ir. Adorei te conhecer, foi a melhor manhã que tive
nos últimos anos.
- Que tal vir aqui amanhã de tarde, tomar um café, chá, sei lá?
- Tá, eu vou adorar. Eu trago uns biscoitos. Tchau.
Ela te beija no rosto e vai embora. Quando ela some ao longe você
entra em casa, pega algumas ferramentas e vai remover os entulhos do
arranha-céu.
Tenha um bom sábado ^^
Abraços.

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