quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O sétimo barco a chegar em Darama

O sétimo barco a chegar em Darama, nome dado a nova ilha descoberta pelo reino de Thais, foi recebido com alegria. Finalmente os operários seriam substituídos por novos, e poderiam voltar ao continente e rever suas famílias. Quase um ano havia se passado desde o início da colonização, e as areias escaldantes do deserto não deixavam as coisas mais fáceis.

Apesar das dificuldades, o vilarejo já avançava em direção a tornar-se uma cidade. Não que alguém acreditasse que aquele deserto poderia gerar frutos ou que algum tipo de animal pudesse ser criado em larga escala. Era em seu subsolo que estava sua riqueza. Vastas cavernas, naturais ou sendo construídas pelos homens, já estavam sendo exploradas para obtenção de minérios e pedras preciosas. É claro que a montanha central do continente tem jazidas tão ou mais ricas, mas também tem anões ferozes dispostos a defender seu território com a vida. O Imperador Kruzac mantinha relações diplomáticas relativamente pacíficas com Thais, mas o monopólio dos anões sobre as jazidas de Kazordoon jamais seria negociável.

Mas Darama não é um lugar de todo ruim. Existem oásis. E sempre há a esperança de que além das montanhas o clima seja mais ameno.
- Veja, Kay, o barco com os novatos chegou! – o homem de baixa estatura, pele queimada e roupas surradas vibrava ao apontar o porto. – Vamos! Quero deixar esse maldito deserto o quanto antes.
- Mas, Mallo, o capataz deu ordens específicas de sondar o que tem além dessas montanhas. Ainda faltam uns trinta metros até o topo e sabem os deuses lá quanto teremos que andar entre essas rochas antes de chegar a algum lugar...
- Ora, esqueça essas ordens, homem! Em quase um ano ninguém passou esse paredão. Faltou água, faltou comida, por vezes faltou caminho depois de um desmoronamento. Alguns nem voltaram. Você acha mesmo que estou preocupado com o que tem atrás desses pedregulhos? Provavelmente é só mais areia. Eu quero mais é rever meu filhote, antes que ele esqueça a cara do pai. Vamos!
Kay viu seu companheiro começar a descer a encosta, meio andando, meio escorregando, e olhou desanimado para o topo da montanha. Ele mal tinha indícios de barba em seu rosto, ainda não tinha esposa ou filhos. Mas tinha uma família. Tinha um pai e uma mãe que esperavam por notícias suas. Com um suspiro, virou as costas para a montanha e começou a descer.

Trinta metros acima, dois homens cobertos com roupas pesadas dos pés a cabeça, deixando apenas uma parte do rosto a mostra, relaxaram a guarda enquanto observavam Kay e Mallo se afastarem. Ambos empunhavam estranhas espadas de lâmina curva, prontos para atacar assim que os dois homens ultrapassassem o pico da montanha. Ficaram algum tempo observando o porto ao longe, a chegada de novos trabalhadores e de suprimentos.
- Devíamos juntar um grupo grande e atacar.
- Ver e não ser visto. Apenas isto. Essas foram as ordens do grande Faraó. E é o que faremos.
- Mas logo será impossível expulsa-los.
- Ver e não ser visto.
- ...
- Você é impaciente. O Faraó já deve ter pensado no que fazer. Vamos, temos que nos reportar e informar o que vimos. Sem sermos vistos.
- Muito engraçado.
E os dois começaram a se afastar entre as rochas, usando caminhos imperceptíveis a olhos destreinados.

Um comentário:

  1. Alex Frey eu não tenho seu talento. Eu só faço me repetir: você é um escritor pronto, você é requintado, você escreve deliciosamente bem. Adoro ler suas histórias. Continue escrevendo! Um grande beijo de uma grande fã que um dia vai ganhar um livro autografado (ou dois, ou três, quem sabe?)! Thereza.

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